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Crítica ao filme "Barbie" (2023)

Considerações sobre o filme "Barbie" (2023)

Sou apaixonada por cinema e, ontem, o filme "Barbie" foi lançado. Teria adorado assistir no Brasil junto das minhas sobrinhas, que são grandes fãs, mas infelizmente não foi possível. Ainda assim, consegui vê-lo aqui na Europa. 

Dentre as minhas graduações, destaco a formação em Artes e Letras, além de especialização em Metodologia do Ensino da Arte e Arte Contemporânea. Com essa base, gostaria de oferecer minha análise profissional sobre o assunto.

Dirigido por Greta Gerwig, chega às telas em um cenário cinematográfico em uma era onde as questões de identidade, gênero e poder estão mais polarizadas do que nunca. No entanto, Barbie, como ícone, pertence primariamente à geração dos anos 90, uma época anterior à explosão das redes sociais e à era dos “nativos digitais”. Enquanto os jovens de hoje não crescem sob a mesma influência direta da Barbie como os daquela época, o impacto cultural mais amplo da boneca ainda ressoa... A franquia Barbie é historicamente associada à representação de padrões estéticos e a certas normas de gênero, este novo capítulo busca navegar pelas águas tumultuadas da cultura moderna "woke" que se refere a uma consciência e sensibilidade ampliada em relação a questões de justiça social. Mas será que acertou o tom?

Estética & Design: Em termos visuais, o filme brilha. As recriações meticulosas dos cenários icônicos, os detalhes nos figurinos e a paleta vibrante de cores proporcionam uma viagem nostálgica para aqueles que cresceram brincando com as bonecas Barbie.

Escolha do elenco: Margot Robbie, na pele de Barbie, não é apenas esteticamente compatível, mas traz uma profundidade para um personagem que, durante décadas, foi principalmente um ícone visual. Gosling, por outro lado, parece ser uma vítima do próprio roteiro, com um Ken que oscila entre a caricatura e o estereótipo.

Narrativa e Personagens: A tentativa de abordar tópicos contemporâneos, como o feminismo e o patriarcado, é evidente, mas em muitos momentos soa forçada e simplista. A transformação de Ken em vilão parece ser um movimento ousado, mas também corre o risco de perpetuar uma dicotomia problemática: a de que a ascensão feminina só é possível mediante a queda do masculino. A representação unilateral de Barbie como um paradigma de empoderamento também pode ser problemática, pois ignora a complexidade das questões femininas e os diferentes matizes do feminismo.

Mensagem & Cultura "Woke": O filme tenta equilibrar a nostalgia com uma mensagem progressista. No entanto, a aplicação excessiva da lente "woke" pode tornar a mensagem mais divisiva do que unificadora. O feminismo, quando apresentado de forma unilateral e sem nuances, pode alienar em vez de educar.

Roteiro: O roteiro, co-escrito por Gerwig e Noah Baumbach, traz momentos brilhantes, mas também sofre com certas inconsistências. A inserção de diálogos e cenas que parecem mais voltadas para a "militância" do que para a construção da história dilui a trama e, ocasionalmente, faz o filme parecer mais um manifesto do que um entretenimento.

Trilha sonora : O filmeapresenta um conjunto sonoro cativante, sobressaindo-se com a canção principal, "What Was I Made For?" (Para Que Fui Criada?), interpretada por Billie Eilish. Esta canção encapsula de forma poética as tensões da era digital contemporânea. A letra ressoa perfeitamente com uma geração que, embora busque um propósito autêntico em um mundo dominado por uma perspectiva holística, encontra-se frequentemente presa nas armadilhas das redes sociais. Neste ambiente, muitos sentem a pressão para se moldarem a expectativas externas, frequentemente sacrificando sua verdadeira identidade para agradar e manter seguidores.

A canção explora a dualidade da existência em um mundo onde a autenticidade é desafiada. Billie Eilish, através de sua letra, questiona a essência da identidade e o propósito de existência, um sentimento que muitos compartilham na era digital. Expressões como "Eu costumava flutuar, agora só caio" e "Parecia tão viva, no fim das contas, não sou real" destacam a luta interna entre encontrar significado e ser subjugado pelas expectativas sociais. É uma canção que ecoa o desejo profundo de reconexão com o eu verdadeiro em um mundo de representações frequentemente distorcidas.

Conclusão: "Barbie" é ambicioso em sua tentativa de reimaginar um ícone da cultura pop para a era moderna. Enquanto triunfa esteticamente e em algumas de suas mensagens, a execução, por vezes, carece de sutileza e complexidade. Em um mundo que clama por representações mais ricas e multidimensionais de mulheres (e homens), o filme faz avanços, mas também perde algumas oportunidades.

O futuro da Barbie no cinema certamente será influenciado por esta interpretação. Espera-se que futuras iterações possam abordar questões sociais importantes com mais nuance e menos polarização.

Minha experiência com a boneca:  

Cresci na era da Barbie. Eu e minhas irmãs tínhamos casinhas com móveis, carros e bicicletas da Barbie, e passávamos horas brincando. Nossos pais, não podiam  presentear cada uma de nós, com uma "Dream House". Naquela época, os produtos eram mais caros, e a facilidade de compra online com entregas rápidas, tão comum hoje, não existia. Me lembro que o videogame e Game Boy da Nintendo do meu irmão, foram trazidos pelo sócio do meu pai do Japão. Então as Barbies eram originais e alguns produtos eram da Mattel, todo rosa, e outros tinham o nosso toque especial. 

Nosso querido tio Samuel, a quem somos eternamente gratas, um habilidoso marceneiro .Com suas mãos talentosas, criou para nós camas, sofás e armários em madeira envernizada, todos perfeitamente detalhados e almofadados. Eram móveis tão realistas que até as gavetas dos armários e as portas se abriam. Eram réplicas tão fiéis que todas nós tínhamos nossas próprias "casas" e famílias de bonecas. 

Aquela era a nossa "Dream House", um refúgio mágico e um berço de nossa criatividade. Nutríamos um amor profundo por aquele universo, e ele nos trazia imensa felicidade.

Nossas casinhas eram minuciosamente detalhadas, decoradas com espelhos, plantas e até pets. Além disso, sob a habilidosa orientação de nossa mãe, uma costureira extraordinária, que transformava seu hobby em verdadeiras obras de arte , com ela aprendemos a arte da costura. resultando em um vasto guarda-roupa para nossas Barbies. Elas estavam sempre na moda, vestindo jeans, jaquetas, saias e outros itens contemporâneos. Aquelas casinhas eram nossa versão da "Dream House", um santuário de imaginação e criatividade.

Passávamos horas de nossos dias brincando. Confesso que essa experiência contribuiu imensamente para o nosso desenvolvimento criativo e crítico. Estávamos constantemente criando histórias e resolvendo problemas. Durante minha adolescência e ao longo da vida, notei que sempre desempenhei um papel de liderança nos grupos dos quais participei, e minhas irmãs, em suas respectivas fases jovens e adultas, também se tornaram líderes em suas áreas. Uma delas até fez um curso de moda , creio que foi a influencia das excelentes roupas que minha mãe costurava e dos modelos maravilhosos que ela criava para nós.  E através da confecção de roupas para as bonecas minha irmã foi desenvolvendo o gosto, observando e construindo, pois sabemos que o aprendizado e mais eficaz na prática.  

Hoje, possuo mais de 20 histórias, contos e poemas originais registrados. Acredito que minha facilidade para criar narrativas tem raízes em minha infância. Escrevi algumas peças teatrais, e atuei, nossas apresentações sempre foram muito boas, com detalhe de figurino, trilha sonora, maquiagem cênica, cenário. Quando éramos adolescentes/jovens , estávamos sempre envolvidas nas apresentações artísticas da escola, e nas atividades da igreja em nossa comunidade. Acredito que o ato de brincar ativamente durante a infância, em um contexto não virtual, aprimorou nossa habilidade de oralidade, nossa capacidade de assumir diferentes papéis e nossa excelência em desempenhá-los.

Não acredito que seja apenas por brincar com a Barbie, mas pelo ato de brincar em si, usando materiais tangíveis, criando um universo, estabelecendo regras e respeitando as regras acordadas entre irmãos e amigos. Tal prática é extremamente benéfica, pois cultivam nas crianças a resiliência, e essas crescem e se tornam adultos sábios, inteligentes, aptos a liderar, lidar com frustrações e de enfrentar desafios.

Sobre a música :


Billie Eilish - What Was I Made For?  (Para Que Fui Criada?)

Hum, hum

Hum

Eu costumava saber, mas agora não tenho certeza
Para que fui criada
Para que fui criada?
Parecia tão viva, no fim das contas, não sou real
Só algo pelo qual você pagou
Para que fui criada?
Eu não sei como me sentir
Mas quero tentar
Eu não sei como me sentir
Mas um dia talvez eu saiba
Um dia talvez eu saiba
Hum, hum, hum
Estou triste de novo, não conte para o meu namorado
Não foi para isso que ele foi criado
Para que fui criada?
Eu não sei como me sentir
Mas quero tentar
Eu não sei como me sentir
Mas um dia talvez eu saiba
Um dia talvez eu saiba
Algo que não sou, mas que posso ser
Algo pelo qual espero
Algo para o qual fui criada
Algo para o qual fui criada

A canção de Billie Eilish nos conduz a uma profunda reflexão: para que propósito fomos criados? Cada criança, seja menino ou menina, traz consigo valores inerentes e propósitos extraordinários, sementes que o universo planta em cada ser no momento em que são apresentados ao mundo. As pressões sociais não devem confundir ou desviar nossas crianças do seu verdadeiro caminho. Eles necessitam ser acolhidos, amados e respeitados em sua essência. Seus valores devem ser cultivados e, quando cometerem erros, devem ser orientados com amor e compreensão. Precisamos sempre lembrar que nossas crianças não são meras extensões de nós ou bonecos moldáveis; elas são indivíduos. 

Cometer erros é parte intrínseca da natureza humana, assim como ter falhas. E é na aceitação dessas imperfeições que reside a verdadeira beleza da vida. Precisamos ensinar nosso pequenos a importância de valorizar sua essência, amar seu corpo, realçar suas qualidades, reconhecer seus pontos de melhoria e, acima de tudo, não se comparar, aceitar as diferenças. Enquanto muitos aspectos do conhecimento podem ser efêmeros e o que era relevante ontem pode não ser mais hoje, valores e princípios são eternos e constituem o legado mais valioso que podemos transmitir.

Querida família,  ao escolhermos os filmes e brinquedos e histórias que apresentamos aos nossos pequenos, lembremo-nos da rica tapeçaria de valores e identidades que compõem nossa sociedade. Em vez de polarizar entre o feminino e o masculino, ensinemos nossas crianças a valorizar, respeitar e entender as qualidades únicas e complementares de ambos. Em um mundo em constante mudança, a melhor herança que podemos deixar é a de empatia, compreensão e a capacidade de ver além dos estereótipos. Que possamos criar uma geração que não só entenda o valor do feminino e do masculino, mas também o poder da colaboração, da complementaridade e do respeito mútuo.

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